Aos 23 anos, Ticianne era empresária e morava com a sua cachorrinha, Mel, em um apartamento incrível em um dos bairros mais boêmios de Porto Alegre. Ia andando pro trabalho, tinha a casa sempre cheia de amigos e a vida estava ótima, muito obrigada. Depois de quatro anos de realizações, de repente a depressão entrou sem pedir licença, sem nenhum motivo aparente para estar ali.

Jurava que tinha nascido para ser a business woman que era na época, mas carregava uma paixão que tinha outra vertente: cozinhar. Achava que isso era só um hobbie e amava cozinhar para os amigos e claro, para si mesma. Enquanto a depressão tentava se instalar na sua vida, daquele jeito atrevido se esparramando no sofá e abrindo a porta da geladeira, ela pedia sinais para o universo. Qualquer sinal que apontasse alguma direção onde aquela angústia sumia no horizonte.

Se seu pedido foi atendido pelos deuses, deixo a crença nas suas mãos. O fato é que, nesse mesmo período, ela foi, despretensiosamente, convidada para cozinhar para 20 pessoas no aniversário da mãe de uma amiga. Foi o seu primeiro evento como chefe de cozinha e nem preciso dizer que foi sucesso total,mas ela continuou pedindo sinais para o universo, afinal, era só um jantar.

Pouco tempo depois, se candidatou para outro jantar e cozinhou sozinha para 30 pessoas,. No final daquele dia, apesar de exausta, se sentiu feliz de uma forma que há muito tempo não sentia. Era daquele jeito que ela queria viver a vida. Então foi isso que fez.

A primeira coisa que ela pensou quando decidiu que queria trabalhar como chefe foi “Vou pra Itália!”. Seria o lugar perfeito para fazer curso de culinária. Quando voltasse para o Brasil, seu currículo já teria um diploma italiano!

Dia 31 de abril de 2018, foi o seu último dia no trabalho. Deu um tempo com sociedade que tinha na empresa e decidiu se aventurar pelo país da massa.

Foi difícil se desapegar da sua vida tão cheia de significado. Dormiu até o último segundo no apartamento vazio, onde todas as coisas já tinham sido vendidas. Ela queria aproveitar o máximo que pudesse todas as lembranças daquela fase, todos os amigos que fez, tudo que ela conquistou. Mas era hora de virar essa página e continuar a história.

A Itália

A Tici me falou que as coisas na vida dela acontecem com uma sincronicidade bizarra. Como se elas acontecem no momento certo.

Quando já estava na Itália estudando, decidiu fazer outro caminho de bicicleta. Debaixo do sol de 40 graus do verão europeu, ficou morrendo de sede no caminho e entrou em um restaurante para comprar água. O restaurante era em cima de um pico e tinha uma vista sensacional.

Ao entrar, se deparou com aquela vista incrível e foi interrompida pelo dono do local, que perguntou para ela “Você não quer aprender um pouco de cozinha siciliana?”. Trabalhou lá por um mês ganhando uns trocados e aprendendo a cozinhar. Além disso, fez outros dois cursos de culinária e um de italiano.

Depois de três meses na Itália, foi pra Tailândia, porque o visto de estudante só durava três meses. Ainda quer voltar pra Itália, mas para ficar lá legalmente precisa abrir um processo de cidadania e não pode sair de lá por um ano. Então ela pensou que seria um ótimo momento de viajar. Seu próximo destino é a Índia.

A Tici está vivendo de forma completamente aberta, sem planejar muito o que vai acontecer. Isso é algo completamente diferente para ela, já que sua trajetória foi tão pragmática. É louco quando você se joga na vida, porque parece que o universo todo está cuidando de você e abrindo os caminhos.

Eu acredito que quando a gente começa a viver nosso propósito ou digamos, fazer o que a gente quer fazer do fundo do nosso coração, os obstáculos vão sendo retirados, desobstruindo o caminho; como um rio que corre para o lugar que deve desembocar. Não vou dizer que é fácil, mas quando você inicia esse processo, tudo flui e começa a fazer sentido.

O Amor

Na minha percepção, a Itália se abriu como um novo portal na vida da Ticianne. Não só no sentido profissional, mas em todos os outros. Ela conseguiu se desamarrar de tudo que achava que era o certo e mudou o ponto de vista. Conheceu duas amigas maravilhosas que ensinaram para ela que o amor não precisa de tempo.Aliás, elas falavam muito de amor.

Depois de três dias que se conheceram, uma delas falou “Eu sei quando eu comecei a te amar” e ela pensou, nossa eu também amo essa menina, mas como é difícil me permitir sentir e admitir.

Conseguiu. Aprendeu a amar da forma mais simples, sem questionamentos, porque o amor não é calculável. A gente não imagina o quanto perde por não se permitir sentir, qualquer sentimento que seja. Pode parecer uma boa ideia evitar a dor, mas ela nos puxa pelos pés de um jeito ou de outro. E no final, o que vale a pena mesmo é se jogar.

Teve relações rápidas, intensas e cheias de amor. Isso era algo totalmente fora do comum pra ela. Como consequência, começou a namorar um cara incrível durante o período que esteve na Itália. Ela não gostava de manter relações duradouras, porque não queria se envolver com ninguém. Fazia de tudo para que não desse certo, como uma forma de proteção e sabotagem.

Mas quando se deu conta, estava apaixonada, vendo seu ragazzo várias vezes por semana. Resolveram viajar juntos e aproveitar o tempo juntos.  Quando foi embora, se deparou com ela mesma chorando de saudade no aeroporto. E ficava chorando, soluçando e sentindo aquele sentimento todo transbordar.

E enquanto ela sofria pela separação, ela pensava “Que maravilhoso sentir isso, que incrível me sentir viva”. Se emocionava com sua própria emoção.

Propósito

A Tici ainda não sabe o que vai fazer, mas isso não é mais um problema. Ela apenas confia no universo e deixa fluir. Acredita que seu o propósito está muito além de apenas cozinhar, mas está relacionado a deixar algo para as pessoas, que façam com que elas sigam seu propósito também.

Pra ela que sempre foi tão racional e calculava tudo que fazia, sem se deixar influenciar pelo que sentia, a vida tem sido muito surpreendente. E essa é a prova de que as coisas acontecem no tempo delas. É claro que a gente precisa de uma baita coragem de confiar não só no universo mais em nós mesmos. Todos temos a capacidade de viver em potência máxima. Deixar para trás algumas ideias formadas é o que é o mais difícil, mas vale o esforço.

A gente não precisa ficar ansioso para tomar o próximo passo, mas é preciso estar aberto. Foi isso que eu aprendi com a Ticianne. É preciso se ouvir e esse é um exercício que nos exige muito. Mas não tem outro caminho a não ser confiar nas suas escolhas.

A Tici procura seguir o seu propósito e talvez nem tenha se dado conta de que ele já está sendo cumprido. Pouco a pouco vai deixando sua marca com quem cruza seu caminho e deixou uma marca enorme de confiança em mim. Foi o instrumento do universo e traduziu para mim em outras palavras “continue este projeto”. Eu ouço e não tenho outra escolha senão acreditar.

O que é felicidade pra você?

Felicidade é simplesmente sentir alguma coisa. A sensação de estar vivendo o seu propósito.

O que te inspira?

Deixar uma marca na vida de alguém e inspirar outras pessoas.

O que você sente mais orgulho em você?

Minha coragem

“Nossa, eu nunca tinha falado isso em voz alta”

Palavras que te representam

“Propósito, conexão e universo.

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Marcela Picanço
Criadora e editora do De Repente dá Certo! Este blog é um mapa de onde minha imaginação foi. Agora, o caminho é de vocês. Sejam bem-vindos! Pra saber mais é só clicar ali em cima no: "Quem escreve essas coisas?"