“Navegar é preciso, viver não é preciso”, já dizia Fernando Pessoa e comprovamos isso no Rio de Janeiro, na segunda-feira passada. Foi nesse clima que cheguei  ensopada à faculdade pra fazer minha última prova do semestre: Processos de restauração tecidual. Nada fácil, nada muito interessante, mas era o que eu precisava pra sentir o cheiro das festas do fim do ano. Saí da prova já me vendo deitada na minha cama quando lembrei que precisava ir ao banco. Fui rapidamente ao shopping mais próximo e entrei de costas para voltar pra casa o quanto antes. Fila no banco, espera infinita e minha bexiga imperiosa começa a gritar. Se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é que quando a bexiga manda, eu preciso obedecer. Olhei triste pra fila que eu encararia quando voltasse do banheiro, mas aceitei meu destino. Corri pelos corredores do shopping e resolvi a questão urgente, já antevendo a fila que deveria ter aumentado em mais 800 pessoas só nesse tempo. Enquanto lavava as mãos no banheiro aparentemente vazio, ouço a porta de uma cabine se abrir atrás de mim e instantaneamente olhei pelo o espelho me deparando com uma moça alta, com seus vinte e tantos anos, bem vestida e aos prantos.

A moça me olhou e eu baixei os olhos rapidamente para evitar desconfortos. Ela veio soluçando para a pia ao meu lado e começou a lavar o rosto sem parar de chorar ao som animado de “Santa Claus is Coming to Town”, coisa que o shopping nos oferece em qualquer canto durante o mês de natal. Olhei para ela e perguntei se ela precisava de ajuda. A moça não conseguia responder e apenas enfiou o rosto num lenço de papel. Cheguei mais perto e toquei o braço dela que disse ainda com o rosto no lenço: “ele voltou com a ex.” Não conheço a moça, não conheço “ele”e não conheço a ex, mas naquele momento, eu senti a dor dela em cada soluço. Será que ele trocou a moça pela ex? Será que eles namoravam? Será que eram casados? Será que ela estava numa relação platônica, mas cheia de esperanças? Será que ele contou isso pra ela? Será que ela descobriu sozinha? Nunca saberemos. O fato é que ele havia voltado com a ex e a moça estava sem ele, sem consolo e sem poder fazer nada para mudar isso.

Saí daquele banheiro imaginando ele e a ex indo ao cinema, sorridentes de mãos dadas, após o expediente e a moça ali naquela cabine aos prantos sufocada com música de natal. “Quando um tecido sofre lesão ele será restaurado, seja por regeneração ou cicatrização” foi a frase que eu tinha lido inúmeras vezes antes da prova e que se tornou tangível naquele banheiro. A moça havia sofrido uma lesão grave, dessas que são profundas e sangram à beça. Se fosse uma lesão superficial, ela passaria pela regeneração e o tecido não teria marcas, retornando exatamente ao aspecto inicial, mas aquele não era o caso. Aquilo era coisa séria e ia ser restaurado por cicatrização, sem dúvidas. A cicatrização acontece em lesões maiores, mais importantes, exigindo mais tempo, mais colágeno e deixando uma marca eterna. É raro lembrarmos dos machucados leves porque não deixam vestígios, mas quando temos uma cicatriz, nunca esquecemos o que aconteceu ali e muitas vezes não conseguimos esconder a injúria.

No entanto, quando perfeitamente fechado o ferimento, a cicatriz não dói, não coça, não incomoda e só nos lembramos do acontecido quando olhamos pra ela. Lembramos do que não deu certo e sabemos que não podemos repetir aquele feito. Ficamos mais cuidadosos porque a cicatriz nos lembra da dor que sentimos e o quanto custou até que a ferida secasse. Percebemos que nosso corpo encontrou uma forma de se restaurar, às vezes com ajuda de uns pontos ou curativos, mas o trabalho maior foi nosso próprio corpo que fez, de forma natural. Nossa tendência é fechar feridas, superá-las e voltarmos ao nosso funcionamento normal. Perdas, mágoas, traições, rejeições, lutos e toda a sorte de dramas são capazes de provocar cortes gravíssimos, mas é da nossa natureza fazer a cicatrização. Sempre nos restauramos, por mais que doa e que demore, somos fortes e eficientes pra isso. Temos essa capacidade, aliás, é mais que capacidade, é inevitável. Não sabemos fazer de outra forma se não ir fechando, regenerando, juntando as bordas, expondo menos o interior até que fica apenas a marca do que passou e cá entre nós, tem cicatrizes que rendem histórias incríveis.

Não acredito que eu venha a encontrar essa moça novamente e não sei se um dia ela se reconhecerá nesse texto, mas se acontecer, vai passar, guria. Deixa ele ser feliz com a ex e não futuca esse machucado.Vai olhando o que tem dentro, limpa direitinho, cobre pra não expor à agentes infecciosos que só vão te inflamar e deixa ir fechando. O prognóstico é bom: você vai sobreviver, mesmo com a cicatriz. Um feliz natal e uma boa vida pra você.

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Luisa Mote
Carioca que ama São Paulo, estudante de medicina e formada em letras porque a vida pode ter muitos espectros. Não me peça conselhos nem opiniões, mas me convide pra uma xícara de café, algum gluten, alguma lactose, alguma gordura e uma conversa bem humorada. Isso é tudo que a gente precisa, meu bem.