Não faz muito tempo circulou na internet um texto que eu poderia muito bem ter escrito, que eu estava inclusive planejando escrever, e que eu recomendo muitíssimo que vocês leiam. É sobre como a Rory Gilmore, personagem de Gilmore Girls, minha série favorita de todos os tempos, moldou os ideais de vida de toda uma geração de meninas. Pra resumir, porque agora realmente já foi escrito, a Rory tinha tudo: a beleza, a magreza, o mindset, a inteligência, a mãe melhor amiga, o dinheiro (dos avós, but still). Tudo isso sendo totalmente feminista, fazendo caridade, sendo a melhor amiga possível e conseguindo a proeza de ser descolada sem fazer esforço. O texto bateu forte em mim e em muitas amigas também.

Não é que de uma hora pra outra todo mundo tenha percebido que isso é inatingível e se dado conta de que a série era extremamente surreal – Stars Hollow sempre foi surreal, e a perfeição da Rory sempre foi escandalosamente exagerada, pelo menos pra mim. É uma série, no fim das contas, e a Amy Sherman cria essa atmosfera exagerada muito bem, para a nossa alegria inclusive.

Mas aí que tá. Mesmo tendo essa noção, mesmo sabendo que “ninguém é perfeito” e que “normal” é relativo – e olha que eu sei mesmo, basta lembrar que eu faço parte de uma revista para adolescentes cujo grande objetivo é promover ideais de vida inclusivos e diversos – a gente internaliza certas coisas. Ok, não da pra comer hambúrguer todo dia e ser magra, não dá pra ir pra Harvard… mas dá pra chegar perto, né? Dá pra tentar. Dá pra ser o quão perfeita der pra ser, sempre com a desculpa de que “eu dou conta”, “estou fazendo tudo isso porque me faz bem”. Isso desmorona, gente. “Ser a melhor versão de você” parece uma ideia muito legal e inocente, mas ela está recheada de implicações complicadas e perigosas. Está plantada nela a sementinha para a busca desenfreada e muitas vezes pouco saudável por um ideal de vida – não só de beleza – inatingível e insustentável.

E a culpa não é da Rory. Aliás, não foi isso que a autora do texto disse, e nem é o que estou querendo dizer. Enquanto role model a Rory ainda é um bilhão de vezes melhor do que grande parte das heroínas de séries adolescentes dos anos 2000. Assim como a Joey, de Dawson’s Creek, ela ajudou a transformar a ideia de que para ser cool era preciso ser mean girl e/ou rebelde. As duas personagens tiveram seus momentos de loucurinhas, mas representavam um grupo de meninas que não tinha vergonha de ser “nerd” e ter aspirações profissionais grandiosas, e isso é bacana.

O problema é que na ficção as coisas tendem a ser romantizadas e facilitadas, e aí não existe noção bem definida de realidade que resista. A Rory é pra mim o que a modelo da Victoria’s Secret com 3 milhões de seguidores no Instagram é para adolescente “patricinha” de hoje. São duas perfeições diferentes, mas ambas são idealizadas e inatingíveis.

O curioso é que eu tinha sacado isso tudo uma semana antes desse texto a que estou me referindo ser publicado, durante a minha segunda ou terceira sessão de análise. Claro que eu sabia que a minha relação com minha mãe era espelhada na da Rory com a Lorelai, e é claro que eu sabia que tinha construído pra mim um personagem baseado nessas moças independentes, inteligentes e perfeitas das minhas ficções favoritas. Até aí acho bem “normal”.  O que a autora sacou, e que eu estou agora tentando martelar na minha cabeça, é que a gente faz vista grossa pros defeitos dessas personagens. Porque eles existem, ainda que em menor grau do que na vida real. Nós miramos só na perfeição delas, enquanto deveríamos nos reconhecer também nos defeitos. E isso é verdade também das nossas amizades: quantas vezes a gente não esconde tudo de ruim que tá rolando na nossa vida só pra não estragar o encontrinho da galera, pra parecer perfeita aos olhos das outros, quando na verdade estamos todos cheios de questões e precisando botar pra fora?

Eu vejo isso acontecer tanto, e com pessoas que são muito muito próximas, não só colegas de balada. Gente que engole os problemas pra não “cortar o clima” da festa. Que faz de tudo pra esconder quando não está bem. Eu sei porque eu já fiz muito isso. Não mais. Aliás, uma das muitas lições que podemos tirar de toda a movimentação do #primeiroassédio é que calar traumas só perpetua traumas. Nesse sentido, esconder as suas imperfeições só vai fazer com que as pessoas se sintam cada vez piores por não serem perfeitas.

Não precisa alardear, apenas não tenha vergonha – não poupe seus amigos da parte feia. Parece fácil e óbvio mas super não é. Estamos todos agarrados a ideais de perfeição construídos a conta gotas ao longo da vida – minuciosos castelinhos de areia. O meu espatifou outro dia. Hoje, lá pelas tantas na sessão de análise, depois de eu já ter usado uma cinco metáforas diferentes pra coisas desmoronando, minha analista vem com a seguinte pergunta: “o que a gente constrói que não cai?”  Pedi pra passar e anotei no meu caderninho.

Sei lá, mil coisas, valendo!

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Luiza Vilela
Luiza S. Vilela tem 28 anos e mora no Rio, mas antes disso nasceu em São Paulo, foi criada em Vitória e viveu uma história de amor com Leeds, na Inglaterra, e outra com Providence, no Estados Unidos. Fez graduação em Letras na PUC-Rio e estudou poesia contemporânea no mestrado por lá também. É escritora, tradutora e consultora textual freelancer, contribui com muito orgulho pra Revista Capitolina e acredita no poder da literatura acima de todas as coisas | www.luizaescreve.com