Chegou o momento de eu escrever esse texto. Nossa, quanta tensão para algo que nem é
nada demais. Mas é isso, faz parte do meu show.
Espera. Eu me traí.

Nada demais, uma ova. É demais sim, é demais pra caralho.
Estou há muitos dias para escrevê-lo e fico pensando nele diariamente, por razões que
vocês verão que são óbvias, mas aí não escrevo e nem sei muito bem o motivo. Só um
deles. Que é aquele que às vezes me impede de coisa ou outra. Achar que ninguém vai
ler e que perdi meu tempo só para mim mesma. Mas por outro lado, e daí? E daí se for
só para mim ou só para mim e mais duas pessoas?

Agora eu fui estimulada a escrevê-lo, depois de ler o textinho pós-aniversário de uma de
minhas irmãs de vida, que fizeram minha memória revisitar vários momentos que
vivemos juntas, que me fez viajar de volta ao Rio e puta que pariu que saudade do Rio
meu deeeeeus do céu por favor desce um açaí com guaraná e uma caipirinha de limão,
chama o moço do biscoito Ô GLOBO vê um doce.

03 1 - É preciso falar da saudade

É muito ótimo morar fora. Está sendo incrível. Chega a ser difícil concentrar nos
estudos quando eu tenho uma cidade como Paris para explorar. Andar na rua nunca
mais foi a mesma coisa, não posso nunca sair atrasada, porque sempre me atraso ainda
mais por motivos de: parar para tirar fotos ou ficar abestada diante de alguma situação.
A experiência de novas pessoas está sendo experimentar a mim mesma, a uma nova eu,
a várias novas eus, já que nos transformamos a cada dia.

Mas a gente precisa falar da saudade! Esse sentimento que, como conversei outro dia
com um amigo, é tão paradoxal. Tão gostoso e desesperador. A parte boa é que a gente
só sente saudade de algo bom ou alguém que gostamos. A parte ruim é não poder voltar
para isso ou estar com essa pessoa. E viver em outro país multiplica a níveis
inimagináveis todas as saudades possíveis. São as vontades repentinas de algum tipo de
comida, o cheiro da minha cama e do meu quarto e da minha mãe que me vêm do nada
ao nariz, a cor da minha parede, o barulho da minha rua, o meu porteiro e o do prédio
debaixo e o sorriso de sempre que eles carregam e o abraço que eles me deram quando
estive lá em dezembro. O sol, o calor, o cheiro da maresia. A caipirinha barata, a dose
de cachaça com sabor, a cerveja ruim, porém gelada. As mesas de plástico. A purpurina
e o suor. Minha família, minhas amigas, meus amigos, cruz credo, é uma saudade do
capiroto. É saudade que nem cabe em mim, por isso transborda dos olhos de vez em
quando.

É também essa sensação louca que em francês se chama “dépaysement”, quando você
está “despaisado”. Ou o “mal du pays” (mal do país), essa lonjura toda de se estar longe
de casa. E essa confusão mental de entender que a última vez que estive em minha
cidade foi para passar férias, foi tipo um sonho rapidinho e gostoso e aqui eu to vivendo
esse sonho gostoso mas não tão rápido. É uma loucura que não dá muito para explicar.
É querer dividir cada bobagem e cada grande acontecimento com as pessoas amadas via
whatsapp, mesmo achando que alguma hora elas vão encher o saco, mas você precisa,
você simplesmente precisa. E não porque você não fez novas amizades, mas merda!
Aquelas são as minhas pessoas! É para elas que eu corro pro abraço, mesmo quando o
abraço é só mental.

Sabe, eu não me sinto despaisada. Não, não. Eu me sinto muito paisada. Cada dia eu
acordo mais brasileira, mesmo nessa contradição de sentimentos em relação ao meu
país. Mas é de lá que vim. Se é pra lá que vou, eu não sei. Mas sei que minha língua me
ensinou a saudade e a distância faz com que ela não termine.

Morar fora é delicioso. Mas vamos parar de bobeira. Vamos falar sério. Quando você
quiser ir, se deixa sentir. Aproveita tudo, inclusive quando seu ar chega a falhar de tanto
que a saudade aperta. Não sente medo de sentir. Sente medo no dia que parar. Aí sim é
pra se assustar. Enquanto isso, eu abraço a minha saudade toda vez que ela me apertar.

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Marina Martins
Uma artista amadora de gente e da vida, tentando colorir o mundo de arco-íris e escapar dos currículos para se definir. Uma sonhadora preenchida por ilusões e realidades que fotografa, filma e escreve o mundo para que ele não escape nunca da memória. E uma cineasta carioca formada no Rio fazendo mestrado em Paris.