O Rio que eu conheci nas férias não é o mesmo Rio de onde eu moro. Eu conheci uma cidade só com gente bronzeada, bonita e pronta pra outra. Conheci uma cidade onde o atendimento é péssimo, mas as pessoas na rua são super solícitas. Conheci uma cidade cheia de artistas buscando mostrar sua arte de alguma forma. Eu respirava arte e sentia constantemente o cheirinho de mar. Me apaixonei por um carioca que me ligava todos os dias de manhã pra perguntar o que eu queria fazer . Ele me levava para todos os lugares mais incríveis, que ele tinha certeza de que eu iria gostar. Eu estava de férias. A única coisa que eu tinha pra fazer durante o dia era ir para aula de teatro, 4 vezes por semana, o que não me atrapalhava nem um pouco. Era só felicidade. Despois dessas férias, decidi que eu tinha que ficar. Aliás, que eu ia, mas eu voltava. E todo mundo me perguntava o que eu tinha visto no Rio de Janeiro pra me deixar tão encantada. Eu falei isso pro meu amor de verão; ele pegou minha mão, me levou até a beira do mar e disse “foi isso que te encantou”. E eu lembro bem da vista: o sol se pondo entre os dois irmãos e meu coração pulsando no peito. Eu não tinha a menor noção da vida.

O Rio de Janeiro que eu moro tem um trânsito infernal, ninguém é legal na rua e essas pessoas bronzeadas, no fundo, são muito vazias. O Rio onde eu moro, tem um prefeito chamado Eduardo Paes, que fez de tudo para o Rio ser uma cidade de férias. Pode perguntar pra quem mora longe da orla! Os artistas querem mais fama do que arte e tem muita gente tentando e se dando mal por fazer o que é certo ou aquilo que acredita. Não sinto cheiro de mar e vejo muita gente dormindo na rua. Na minha rua, inclusive. Meu amor de verão sumiu. Até cheguei a encontrar ele algumas vezes, mas já achava que ele não combinava mais com a minha vida, nem com essa cidade. Amor de verão não volta no inverno. Só vejo a praia no fim de semana, quando tá cheio de gente. Eu amava o cara do Mate gritando “olha o mate”. Agora eu só queria que ele passasse quietinho. Minha maior preocupação é como vou conseguir viver fazendo aquilo que eu acredito. Eu tinha certeza de que tudo daria certo de uma hora pra outra, mas eu não tinha a menor noção da vida.

Hoje, se me perguntarem se eu prefiro o Rio das férias ou o Rio onde eu moro, vou responder que prefiro o Rio de agora. Eu ainda não tenho a menor noção da vida, mas sei que essa foi a vida que eu escolhi e por isso que eu gosto mais dela. A responsabilidade é toda minha. E, no fim, eu aprendi que não existe nada disso de cidade mudar. Quem muda é a gente. E o mundo fica todo diferente quando a gente olha pra ele sob uma nova perspectiva. Hoje eu olho o Rio de Janeiro de frente e não de cima. Nunca me senti tão em casa.

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Marcela Picanço
Criadora e editora do De Repente dá Certo! Este blog é um mapa de onde minha imaginação foi. Agora, o caminho é de vocês. Sejam bem-vindos! Pra saber mais é só clicar ali em cima no: "Quem escreve essas coisas?"