Cresci escutando as histórias da minha bisavó Irma. Vó Irma sempre foi muito lembrada porque destoava da discrição que impera no resto da família. Era figurona. Exagerada em tudo, sempre usava vestidos estampadíssimos, falava palavrão, escondia dinheiro do marido embaixo do colchão, contou que escondia dinheiro do marido embaixo do colchão pro marido enquanto dormia, gostava de jogar, uma vez ganhou na loteria. Convidou todo mundo pra uma festa, prometeu uma tv a cores pro meu pai, só depois descobriu que a quantia não dava nem pra pagar as pizzas que tinha encomendado, porca miséria. Comia e cozinhava muito. Era de Napoli. Mesmo sem nunca ter conhecido ela sempre tive um carinho muito grande pelas histórias malucas dela e sempre pensei em como queria ter conhecido-a, tinha certeza que teríamos nos dado muito bem. Sentia falta de uma pessoa pra bagunçar aqueles almoços de domingo. Quando me mudei pra São Paulo fui morar na casa que tinha sido dela. Eu nunca entendi por que tinha uma banheira no banheiro da sala e não no da suíte, por que a cozinha e a sala eram tão grandes e o quarto extra tão pequeno, por que os azulejos eram tão espalhafatosos… Mas gostava dessas coisas. Gostei de encontrar TODAS as gavetas da casa forradas com um plástico estampado já amarelado pelo tempo. Ficava imaginando o tanto de horas que ela tinha passado fazendo aquele trabalho completamente inútil. Mas que na cabeça dela devia ser essencial. Onde já se viu vida sem estampa?

Esses dias estive na cidade dela e entendi tudo. Entendi as gavetas, os azulejos, as paredes completamente tomadas por armários e o chão de mármore do banheiro que sempre me fazia escorregar e soltar uns xingamentos ao léu. Entendi até o que nem sabia que tinha que entender. Vi e conversei com várias Irmas, me senti perto dela e mais perto de mim também.

Me dei conta de que as vezes a gente encontra mais sobre o que tem dentro da gente se perdendo pra fora. Me encontrei em vielas estreitas e pessoas desconhecidas.

Me apaixonei por um passado que não era pra ser meu, mas era. Se não era, agora é.

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Sophia Alziri
A Sophia odeia fazer minibiografias.Mas ela é a pessoa mais autêntica e cheia de nuances que eu conheço.