Olhando no espelho, aquela lágrima que escorria pelo rosto até chegar perto da boca e se perder na saliva seca caía como tantas outras desde a semana passada. Os olhos inchados, o cabelo preso em coque, a cama desarrumada, a garrafa de vinho, vazia, ao lado do criado-mudo, jogada. Eu estava, de fato, me desintoxicando de alguém que há muito me fez mal e eu permiti isso. Como fui eu quem permitiu, eu quem deveria deixar sair.

Recusei todos os convites quando souberam que minha história de 10 anos havia se esvaído pelas mãos, como cabelos jogados pelo ralo. Quis ficar comigo, minha melhor companhia, e me redescobrir por inteira, nos meus detalhes e no meu tempo. Melhor remédio não há. A ruptura é feita de fases e a minha primeira sempre foi esta (digo “sempre” porque esta foi a cartada final, mas antes dela muitas outras vírgulas foram colocadas na história que eu acreditava ser o meu final feliz).

Eu amei, amei muito. Me doei, entreguei a mim mesma a uma pessoa que, naquele tempo, mereceu. Me cuidou, me amou, me teve e lutou por mim. Nos primeiros momentos era esse mesmo o enredo e eu acreditei – presa às amarras dos contos de infância – que aquilo era pra sempre. Permiti erros, cometi tantos outros, me apaguei e anulei tantas características minhas que, passados os anos, me tornei outra pessoa. Primeira lição: não se permita isso.

Eu errei, errei muito. Chorei, briguei por pouco, fui orgulhosa por algo que já estava enterrado há anos e, acomodada, permiti considerar aquilo minha verdade. Convenhamos: que bela mentira. A culpa foi minha, inteiramente minha por ter permitido anulações constantes, bocas caladas, lágrimas internas e coração doído. Com o pé em cima da privada, a mão na cabeça, cabelo desarrumado e olhos ardentes, me decidi: desarrumar para arrumar, a tal fase 2.

Posso aceitar convites, beber com mais gente, beijar outras bocas. Agora sim. Me encontrei, me recompus, aprendi e revivi. Que os novos erros comecem e eu consiga, como sempre,  juntar meus pedaços. Os meus pedaços que me tornam inteira.

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Marina Bufon Nunes
Marina é linguista e bailarina, dança nas palavras e escreve seus passos. Gosta de linhas tortas, sentimentos verdadeiros (e expressados) e bichinhos (vivos). Do interior de São Paulo, o sotaque permanece nos erres e a voz canta alto nos estádios de futebol, esporte que ama desde a época dos dentes de leite.