Foto por David Benincá

Certa vez me disseram que eu deveria parar: parar de ser assim tão sincera. Mas não consigo, então, se preferem que eu me cale, melhor viverem longe de mim. Essa sinceridade no viver e no acreditar sempre fizeram de mim uma pessoa meio calada, de poucas palavras, mas que, quando perguntada, falava na lata, chutava a barraca.

Não, não sofro de sincericídio, não sou grossa nem insensível, pelo contrário. Por ter coração demais, vivo da verdade, da palavra dita sem rodeios, da objetividade subjetiva. Poucas entrelinhas. Pouca confusão. Apenas direto e reto. Tem gente que não sabe conviver com isso, acha que sou grossa demais, me pede calma. Eu estou calma, só estou sendo sincera.

Essa roupa está boa? E esse sapato? Este texto? E esse namorado? Não, não está bom (da mesma forma que: sim, estão ótimos, combinam com você – para todas essas perguntas). Ser sincero dói muito em quem escuta a verdade, mas é mais difícil de ser falado que ouvido. É ruim você ver alguém iludido por algo que, cegamente, acredita ser real, quando, infelizmente, nada passa de um castelo de cartas prestes a se esvair no vento. E daí entra quem? A amiga/mãe/filha (ou seja-mais-lá-o-que-for) sincera.
 
Acredite: é bem melhor ouvir (ou ler) agora do que, depois, precisar falar “por que você não me avisou?”. É meio difícil, no meio de tanta gente perdida no que quer acreditar e no que, de fato, é realidade, que nem podemos culpar ninguém. Foi assim que tudo isso foi vendido. Por isso, se você é pé na nuvem, tenha sempre uma pessoa pé na lama – não no sentido ruim da palavra, porque essas pessoas são mesmo especiais (mesmo que algumas delas incompreendidas) – mas no sentido do que é real.
 

Todos nós devemos, queremos e podemos viver todas as nossas fantasias, desde que sempre, ao colocarmos a cabeça no travesseiro, tenhamos, no fim das contas, dito verdades a quem nos indagou respostas sinceras. Nossa verdade vale mais que mil mentiras inventadas, mil histórias mal contadas e mil imagens mal vendidas.

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Marina Bufon Nunes
Marina é linguista e bailarina, dança nas palavras e escreve seus passos. Gosta de linhas tortas, sentimentos verdadeiros (e expressados) e bichinhos (vivos). Do interior de São Paulo, o sotaque permanece nos erres e a voz canta alto nos estádios de futebol, esporte que ama desde a época dos dentes de leite.