Faz um tempo estranho lá fora. Dá pra ver pelo reflexo das pessoas. Eu sempre fui de me inspirar pelo reflexo das pessoas, mas elas ficaram muito chatas de uns tempos pra cá. Vão dizer que não tem nada a ver, que quem ficou chata fui eu, mas eu sei que não é verdade. Alguma coisa aconteceu. Alguma coisa mudou tudo. Talvez tenha caído um meteoro invisível que soltou um gás e fez todo mundo ficar bobo demais, falando demais, sendo demais. Pelo que eu percebi, o mais importante agora é ter uma opinião. Se você não tem uma opinião, você tá fora. E se você tiver uma opinião diferente você é um idiota. Não exitem outras possibilidades. O mundo virou um enorme preto no branco, mas na maior parte do tempo as coisas são cinzas.Tá tudo turvo e faz um tempo estranho lá fora. Por isso eu prefiro ficar aqui dentro reclamando de tudo. E vão falar que eu não me dou chance de ser feliz, mas a verdade é que tá todo mundo muito chato mesmo. E eu me enterro na minha arrogância de achar que  vão falar sobre qualquer coisa superficial desinteressante ou sobre alguma coisa que eu já sei e pensei.

Eu lembro que eu gostava de ouvir opiniões diferentes. Mas agora eu odeio, eu odeio gente, odeio ideias feitas como receita de bolo. Odeio quem acha qualquer coisa, mas tem mais certeza do que só acha. Odeio o você-tem-que alguma coisa. Eu não tenho-que nada. Odeio as ideias dos seus pais que você reproduziu sem questionar. Eu odeio as lições de vida que você aprendeu morando fora. Eu odeio aquilo que o dinheiro não conseguiu comprar de você. Odeio suas certezas. Odeio o jeito que você fala mal de gente fútil porque você se acha mais evoluído, mais mais esperto, mais qualquer coisa idiota.  Eu odeio que você não suporta rotina. Eu odeio como você compara mulheres e homens. Eu odeio que você acha que a solução é ir embora desse país de merda logo, em vez de fazer alguma coisa de útil pro seu país e realmente mudar alguma coisa. Eu odeio sua ideia inovadora sobre política que você leu pela metade no livro que você deveria ter lido inteiro na faculdade. Eu odeio o fato de você querer mudar o mundo simplesmente por mudar o mundo e não por fazer algo que realmente acredita. Eu odeio o fato de você gostar de arte como quem gosta de uma banda alternativa que você não quer que ninguém conheça. Eu odeio você gastando meu tempo tentando me convencer de que você é uma pessoa interessante ou gastando meu tempo fingindo que você não liga.

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Eu não quero salvar ninguém, nem convencer ninguém. Eu só queria trocar e acrescentar e receber, mas é tão difícil conhecer alguém que não esteja vociferando ideias pré-prontas ou tão comuns, tão desgastadas, mais do mesmo sobre questões importantes. E dá muita preguiça. A gente nem sabe mais quem somos nós nesse tempo estranho que faz lá fora.

Eu queria falar sobre a origem do universo, sobre o tempo ser infinito ou sobre quem é deus, sem entrar no mérito se ele existe ou não porque deus é uma ideia. E uma ideia é um ser vivo que cresce dentro da gente. Eu queria falar sobre meu medo do fracasso e como a gente não vive em uma competição constante. A vida não era pra ser uma competição,  tem espaço pra todo mundo. Eu queria falar sobre como você vê o mundo, na sua forma de ver, e chegar a conclusões que eu nunca pensei antes. Eu queria ver você me explicar como funciona um moinho ou como é fantástico poder andar de avião e chegar a vários lugares de um jeito tão rápido. Eu queria ver você dizendo como a lua influencia o nosso corpo, como a gente deveria se ouvir mais. Eu queria falar sobre as coisas novas que a gente criou e como isso tem nos deixado motivados. Eu queria que você me contasse alguma coisa nova que você descobriu observando o óbvio. Queria falar sobre aquelas buracos profundos que existem na gente, que de tão profundos, ficam esquecidos. Queria falar sobre minhas manias e como eu me apaixono pelos personagens das histórias e morro de saudade como alguém que eu conheci. Eu queria conversar sobre tudo que não se conversa e é por isso que eu acho o tempo tão estranho lá fora. O tempo das coisas mudou e todo mundo ficou preso nos ponteiros.

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Marcela Picanço
Criadora e editora do De Repente dá Certo! Este blog é um mapa de onde minha imaginação foi. Agora, o caminho é de vocês. Sejam bem-vindos! Pra saber mais é só clicar ali em cima no: "Quem escreve essas coisas?"