Arte por Djuno Tomsni

Eu queria poder te dizer que você está louca, que está exagerando e que não é bem assim. Queria poder dizer que você está sendo muito radical e poder te oferecer outra perspectiva, uma possibilidade de enxergar a situação por outro prisma. Queria te dizer que o atraso de uma hora sem nenhuma mensagem é justificável e que a desculpa dele foi pertinente assim como o fato dele só se manifestar quando você procurou por ele já pronta pra sair e aguardando ansiosamente com o telefone na mão. Queria poder te dizer que ele deve estar muito ocupado no trabalho há dias e por isso ainda não te respondeu. Queria poder te dizer que esses celulares são umas porcarias e ele não te procurou ainda porque o aparelho dele é desses que travam e não destravam nunca mais. Queria poder te dizer que ele esqueceu o caminho pra sua casa e que essas falhas de memória são apenas reflexo do quanto ele se preocupa com tudo. Queria poder te dizer que ele está indo pra academia em outro horário, não para te evitar, mas para não te sufocar porque ele te ama tanto que tem medo de invadir demais o seu espaço.  Queria poder te dizer que conheço muita gente que tem dor de garganta crônica e essa doença gravíssima foi uma boa razão para ele ter faltado o seu aniversário. Queria poder te dizer que ele realmente não gosta daquela outra e que vai terminar com ela em breve mesmo. Queria poder te dizer que é normal sumir nos fins de semana e quem nunca desligou o celular quando foi jantar com os pais? Queria poder te dizer que fugir de conversas sobre vocês dois é coisa de homem e que ausência e silêncio prolongado nunca são falta de interesse.

Eu queria muito poder te falar tudo isso, mas não posso. Não consigo. Te respeito demais pra mentir desse jeito. A verdade é que provavelmente ele não gosta de você. Ele gosta da sua risada, gosta da forma como você fala do seu cachorro, do seu sarcasmo matinal,  da sua tranqüilidade, do apoio que você dá pra ele e até da sua direção ofensiva, mas não gosta de você. Ele não viu em você o que você viu nele. Ele não quis abrir mão da solteirice pra ficar com você e muito menos da namorada, na verdade, ele não abriu mão nem do cochilo da tarde. Ele não vai precisar de você pra sorrir no fim do dia e não vai ter interesse em saber como foi aquela apresentação pra qual você vinha se preparando há semanas. Ele simplesmente não gosta tanto assim e por isso ele nunca vai ser generoso com você como você é com ele. Não posso te explicar o motivo, nem ele pode, mas o fato é que ele nunca vai te dar mais que migalhas. Ele não consegue e não quer dar mais que isso. Você oferece um lago pra ele, mas ele se contenta com uma poça e te oferece uma gota. Essa gota te refresca, é verdade, por um minuto ela é um alívio suspirante, mas seca rápido demais, principalmente quando você está sedenta pelo oceano. É muito bom passar em frente a uma loja com ar condicionado e sentir o conforto por alguns segundos, mas isso é muito breve quando você está andando na rua em Dezembro com um Sol pra cada um no Rio de Janeiro. Você quer entrar na loja, parar em frente ao ar condicionado, fechar os olhos e sentir aquele frescor no seu rosto enquanto você se recupera do inferno lá fora. Esse conforto demorado não vai ser dado por ele porque ele prefere ventilar para outros cantos ou até para ele mesmo, mas não no seu rosto, não pra aliviar e contemplar você.

Chora, vai. Pode chorar porque é triste. Você se abriu, se desarmou, se despiu, riu de verdade, usou seu melhor  senso de humor, seus melhores sorrisos, ajeitou milimetricamente o cabelo, usou aquele perfume que você guarda a sete chaves, amou, ofereceu e não recebeu. Aliás, recebeu sim, mas recebeu a indiferença e negação. A fresta da porta que foi aberta não corresponde ao seu esforço nesse Sol e muito menos ao que você merece ou precisa. Pode chorar em baixo do Sol, com calor e tendo seu refresco negado.

Mas eu tenho que te falar uma coisa sobre ficar no Sol. No Sol tudo fica claro, tão claro que a gente tem que se esforçar pra ver sem sentir incômodo. Nossos olhos não estão preparados pra ver tudo tão bem iluminado, pra ver a verdade ali na nossa frente, sem estar encoberta pelas sombras de uma sala fechada. A gente tem que franzir a testa, apertar os olhos pra, enfim, conseguir ver as coisas às claras, como elas são, sem floreios, sem eufemismos, sem sombra pra nos poupar. Apenas a luz e a verdade ali. Chega um momento em que nossos olhos se acostumam e a gente começa a ver o cenário sem dor, sem incômodo e passa a enxergar todos os detalhes que a claridade nos oferece. A gente vê a parede que precisa de pintura, o bueiro mal colocado, a sujeira do carro estacionado e a flor que está começando a brotar no meio do concreto. O Sol não dá refresco, mas revela e faz nossa vista se adaptar ao que é realidade. Um dia você vai conseguir sair desse Sol e vai ter um refresco consistente, não apenas uma gotinha ou a porta mal fechada de uma loja. Um dia você nem vai lembrar das migalhas das quais você dependia  ardentemente porque a  fartura vai ser grande. Um dia você vai ter um vento que vai soprar só pra você, só pra te ver sorrir aliviada, mesmo que não esteja tão quente assim.

Eu queria poder te dizer muitas coisas, mas estou aqui nesse Sol também e está bem quente. Estamos as duas apertando os olhos pra conseguirmos lidar com a realidade que se apresentou pra gente. No entanto, se não posso te dizer o que quero e vamos ficar aqui por um tempo, vou pegar as palavras emprestadas do Tom Jobim “me dê a mão, vamos sair pra ver o Sol”. Vamos juntas. A gente não precisa dizer nada. Me dá a mão e vamos ver o que está realmente acontecendo.

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Luisa Mote
Carioca que ama São Paulo, estudante de medicina e formada em letras porque a vida pode ter muitos espectros. Não me peça conselhos nem opiniões, mas me convide pra uma xícara de café, algum gluten, alguma lactose, alguma gordura e uma conversa bem humorada. Isso é tudo que a gente precisa, meu bem.