Noite dessas sonhei que você morria. Eu não te matava, você morria sozinho. Acordei muito aflita. Já era umas três da manhã e queria te mandar mensagem naquela hora mesmo pra saber se estava tudo bem, precisava ter notícias suas. Mas não mandei. Tentei voltar a dormir e pensei em deixar a mensagem para o dia seguinte.

O dia seguinte chegou rápido e achei melhor não te falar nada, deixar isso pra lá, mesmo estando ainda meio incomodada com aquilo. Liguei pras amigas e busquei um sentido metafórico no sonho, sei lá, era meu subconsciente dizendo que você finalmente estava morto. Dizendo que agora eu estava livre para seguir minha vida sem você. Sua morte em sonho só podia significar na verdade um grandessíssimo “te esqueci”.

Esqueci o cara que me convenceu do nosso primeiro beijo jogando o galanteio barato de que esperou 5 meses pra ficar comigo. Esqueci o cara que me fazia invadir casas abandonadas numa certa ilhota pra fugir da multidão que vinha cortejando. Naquele mundo de gente, a gente queria mesmo era ficar sozinho. Esqueci seu sorriso tímido, sua empolgação quase infantil com o bar Madrid, sua ansiedade linda quando ia me buscar no metro e aquela sua tatuagem. A tatuagem mais feia que eu já vi na vida. Esqueci nossa intimidade e nossas trocas. Quis mesmo acreditar nisso.

Esqueci.

Não, acho que não esqueci coisa nenhuma.

Me enganei nessa interpretação. Desde àquela noite tenho pensado muito em você e pra mim, agora, o recado do sonho estava mesmo era naquela minha aflição toda. Saber que você tinha morrido me deixava sem chão, pensar em nunca mais te ver me doeu demais. E isso só pode querer dizer que não, não te esqueci. Definitivamente. A gente nunca ficou tanto tempo sem se ver ou se falar… Sabe, fico igual uma boba te procurando em cada reportagem, cada jogo que aparece da copa na Rússia, vai que te vejo ali, no meio dos torcedores, pra acalmar meu coração. Parece uma coisa besta, mas é pra saber que você está bem e feliz. E vivo. Pra fazer aquela aflição toda passar. Isso deve ser a coisa mais besta do mundo, só que é mais forte que eu.

É que eu não quero mais gostar de você. Porque, no bom português, você foi um babaca. Embuste, que é a palavra da moda, né?

Eu fico me perguntando como eu posso ainda alimentar esse carinho todo por alguém que me fez tão mal. Cara, você me tratou que nem um saco de lixo não reciclável. Me disse coisas horrendas e não foi capaz de assumir sua covardia. Se defendia me atacando. Era pra eu não querer nunca mais nem te ver. Demorou muito até você me pedir desculpas, que eu aceitei, de coração. Mas sei lá, os sentimentos se misturaram e tem ainda uma mágoa não passou totalmente. É uma raiva de ainda gostar de você. Quero ficar com você ao mesmo tempo que quero me vingar. Quero te ver me pedindo pra voltar só pra dizer que não. Quero que você tenha ciúmes de mim com seus amigos, que eles te digam o quanto eu sou incrível e como você foi trouxa de me perder.

Mas to achando que a trouxa nessa história toda mesmo sou eu. Porque se você me pedisse pra voltar, eu voltava. Esquecia na hora essa vingança e corria pra sua cama.

Porque eu não quero mais gostar de você, mas eu não consigo.

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COMENTÁRIOS




Mariana Andrade
Da jornalista que queria mudar o mundo pra Mari de hoje lá se vão alguns anos e muitos textos. Escrevo o que escondo. Mais engraçada pessoalmente.