Querida ex-amiga,

Como é estranho te ver assim do outro lado da rua e não falar mais com você. Saber que em um momento soubemos dos segredos mais íntimos, dos medos mais profundos e das paixões mais intensas de cada uma. Hoje não tenho ideia do que acontece em sua vida.

Ainda lembro do dia em que nos conhecemos no pátio do colégio, você me contando, uma mera conhecida na época, os detalhes do encontro que você havia acabado de ter com o cara que você era a fim. Engraçado como a vida amorosa das pessoas gera tanta identificação. Nos sentimos como se a vida do outro acabasse virando a nossa e nos encontramos assim em nossas desventuras. Me senti sua amiga naquela exata hora em que você me confidenciava suas dúvidas, incertezas e animações sobre esse rapaz.

A sua relação com ele não vingou, mas a nossa sim e a partir desse dia nos tornamos quase inseparáveis. Disso se foram quase 3 anos de amizade, um relacionamento muito estável, durou mais tempo do que todos os namoros que eu tive combinados. Você encontrou o amor da sua vida, eu encontrei o amor em mim mesma e assim fomos construindo a nossa amizade passo a passo.

Foi tanta confiança, risadas, momentos de dúvidas e epifanias esclarecedoras. Não posso negar: não há ninguém no mundo melhor do que você para conversar sobre os questionamentos da vida.

Conversamos sobre garotos, dieta e festas, mas também sobre religião, feminismo, problemas familiares, viagens, sonhos. Nos conhecemos tão novas, 17 anos apenas e fomos crescendo e nos tornando mulheres, cheias de certezas, que se jogavam nas oportunidades e quebravam a cara, mas ambas sempre fortes e sem medo de seguir em frente porque sabíamos que havia o apoio uma da outra.

Infelizmente ficamos muito diferentes. As conversas já não fluíam com a mesma facilidade, desentendimentos surgiram, irritações nasceram, bodes foram criados e nos afastamos. Eu virei preto, você branco, e não havia tom de cinza que pudesse nos ajudar. Ainda tentamos segurar a nossa amizade não é mesmo? Como duas garotas na iminência de cair de cara de um precipício procuramos desesperadamente a corda que iria nos tirar daquela inevitável queda. Nos encontramos em alguns bares, festas, somente pra perceber que não havia mais nada a ver entre nós. Você não me entendia e eu não tinha mais paciência, a queda do precipício chegou ao fim e assim gradualmente fomos nos tornando estranhas conhecidas.

Hoje te vejo e tenho aquela sensação esquisita, de que agora você é alguém que eu costumava conhecer bem demais.

Te escrevo pra dizer que apesar de não sermos mais amigas te agradeço pela cumplicidade, pelas ajudas que recebi de você, pelas vezes que liguei de madrugada só pra conversar e você atendia. Pela amizade que foi tão especial e singela enquanto durou. Todos os problemas que surgiram depois não podem apagar jamais aqueles momentos tão sinceros que vivemos juntas.

Que a sua vida seja doce, que consiga uma amiga. Uma melhor amiga. Uma amiga tão boa quanto eu. Aliás esquece, encontra alguém bem diferente, que é pra você lembrar de mim às vezes.

Com muito carinho,

da sua ex-amiga.

 

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Giovanna Ghersel
Giovanna Ghersel tem 23 anos, é estudante de direito e comunicação. Viciada em séries, viagens e desventuras amorosas. Considera ler e escrever terapêutico além de claro: desabafos em mesas de bar, cantar evidências no karaokê ou fazer uma maratona de netflix e pipoca. Atualmente está tentando escrever um livro e descobrir o que fazer da vida. Enquanto isso vai recolhendo experiências e usando-as de inspiração para os textos, afinal não existe nada mais extraordinário do que a vida.