Era uma vez, num reino distante, uma moça que sonhava com um príncipe encantado que fosse alto, cavalheiro, inteligente, carinhoso, dedicado e divertido. Um dia ela encontrou esse príncipe que veio na sua melhor performance entregando flores, permitindo um soninho bom no banco do carona durante o trajeto, levando a moça para os melhores restaurantes, fazendo elogios diários, cuidando dela como quem cuida de uma filha e até se referindo a ela como princesa. Viveram felizes e diabéticos, mas não para sempre. A moça não quis viver num altar com capa e coroa. Desceu do pedestal, largou a realeza e andou sem olhar pra trás.

A moça, que sempre idealizou um romance da Disney, descobriu que a realidade é bem mais interessante que o cinema. A perfeição é uma projeção que todos fazemos, mas quando se chega perto disso, não é exatamente o que queremos. A gente quer amar de verdade, todos os dias, suados do trabalho, com a cara amassada e sem maquiagem. A gente quer dar uma sofridinha com aquela briga não resolvida, chorar à noite porque as coisas estão difíceis e sair com as amigas no sábado sem ter hora pra voltar porque ele tem que pensar um pouco no que está fazendo. A gente quer dar e cobrar explicações, imaginar cenas terríveis e ver que era tudo besteira da nossa cabeça, fazer as pazes, beijar com vontade, reclamar do futebol de terça à noite e da estagiária que com certeza dá mole pra ele.  A gente quer andar junto, no mesmo patamar, vivendo intensamente todos os dias, bons ou ruins, mas vivendo de verdade, com sujeira, lágrimas, suor e amor.

Uma amiga, no dia seguinte ao término de um relacionamento, me escreveu: “Durante tanto tempo eu achei que quando me apaixonasse seria um conto de fadas… É meio ruim viver na realidade e descobrir que não é bem assim às vezes”.  Veja você! Uma termina porque era muito romance literário e a outra termina porque só tinha vida real. Quando as coisas não vão bem, quando não dá certo, quando não há interesse de ambos os lados, quando tem mais cansaço que tranqüilidade, é preciso saber dizer adeus e fechar o ciclo. Tendo ou não cara de contos de fadas, quando se perde o essencial, não adianta insistir. Não se convence ninguém a gostar ou a ficar mais um pouco. Essa é uma porta que só abre por dentro e você pode ser São Pedro, mas não existe chave que abra essa fechadura pelo lado de fora.

Perfeição e estereótipos românticos não sustentam relacionamentos. Eles até despertam paixões, mas não são fortes o suficiente pra nadarem quilômetros em mar aberto, sob chuva forte ou Sol escaldante. Pra chegar do outro lado é preciso sentir a água, criar músculos e resistência, ver a passagem de cada bóia e gostar muito do que se está fazendo. É preciso ter alegria no esforço, se acostumar com a roupa de natação, aceitar a da água entrando no ouvido e até se divertir no processo. O que garante que o percurso vai bem é a possibilidade de gostar do que se está fazendo, de amar cercado pela vida real e por um breve momento, até esquecer a realidade no meio de um abraço ou de uma gargalhada compartilhada. Não adianta seguir os “10 Passos Para Fazer da Vida o Magic Kingdom” sem a disposição e a vontade de estar com o outro, sem interesse e perspectiva pra um futuro, nem que seja de ir junto ao cinema ver aquele filme na semana que vem.

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Contos de fadas são ótimos pra crianças. Que menina nunca brincou de princesa? Quantas não “se acostumaram na fantasia”, já dizia o homem mais homem do mundo, Chico Buarque, e criam expectativas inatingíveis por causa disso. Na vida adulta é preciso fazer a passagem do rolo platônico na porta da escola para um relacionamento concreto, com emoções, incertezas, idas e vindas. Se você ainda é princesa, espero que você consiga enxergar que a vida fora do seu trono tem muito mais graça, apesar de parecer um caos generalizado. A gente chora muito por aqui, mas também ri e ama sem cavalo branco, com toda a nossa humanidade e intensidade. Se você já não é mais princesa há muito tempo, vem aqui fofocar porque tem um plebeu aqui que só vendo…

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Luisa Mote
Carioca que ama São Paulo, estudante de medicina e formada em letras porque a vida pode ter muitos espectros. Não me peça conselhos nem opiniões, mas me convide pra uma xícara de café, algum gluten, alguma lactose, alguma gordura e uma conversa bem humorada. Isso é tudo que a gente precisa, meu bem.