Era só mais uma ida à São Paulo por conta do trabalho. Acha que era São Paulo, na verdade. Já não lembra mais. São tantas as viagens.
E foram tantos anos vivendo na loucura da ponte aérea que tudo que envolve avião vira uma memória confusa na cabeça. O incômodo que sente nessas viagens ajuda também na embolação de datas, locais, aeroportos.  Esses dados já não ficam bem guardados na sua memória, prefere usá-la pra coisas mais úteis.
Já no início do voo, abriu o livro pra ler. As luzes da cabine foram reduzidas e o passageiro ao lado fez a gentileza de acender sua luz de leitura. Acha que isso na verdade foi em outro voo, voltando de BH, mas como disse antes, essas pequenas memórias formam um grande borrão indecifrável de quando e onde tudo aconteceu.
Lia o novo livro da Fernanda Torres.  Agora lembra, comprou na livraria de Congonhas. Pronto, lembrou que tudo então aconteceu mesmo voltando de São Paulo. Entrou na livraria pra procurar outro livro mas acabou levando esse mesmo na falta de encontrar o original. Procurava por Mila Lacombe.
Como dito, ia lendo o novo livro da Fernanda Torres, recém comprado no aeroporto e, quando o avião pousou no Rio, naquela angustiante espera pra descer, o passageiro ao lado puxa assunto Esse é novo da Fernanda Torres né? Sim. Está gostando? Até agora sim. Gostei muito de Fim, vamos ver como vai ser esse.
Você conhece o Antonio Prata? Pouco, nunca li nada dele. O livro novo dele é muito bom também. Ah vou procurar, mas gosto mesmo do pai dele, do Mario.
Ele sorri, um sorriso meio constrangido e meio vaidoso. Ela não entende e meio que da de ombros, não percebe a intenção do parceiro de fila que puxava ainda mais papo.
Você escreve? Ele perguntou ainda interessado. Escrevo, mas só pra mim mesmo, não publico nada, responde junto com um sorriso impaciente já andando pelo corredores do avião. Quer descer logo e ir embora. Tem um encontro ainda hoje, está ansiosa. Ou isso também foi depois do voo de BH? Agora tanto faz, só quer sair dali e seguir com a vida fora da ponte aérea.
Tchau, até mais!
E desse jeito, sem cerimônias, se despediu.
Ela, cheia de pressa.
Ele, Mario Prata.
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Mariana Andrade
Da jornalista que queria mudar o mundo pra Mari de hoje lá se vão alguns anos e muitos textos. Escrevo o que escondo. Mais engraçada pessoalmente.