Ei, você que se apega fácil, se envolve fácil, se apaixona fácil. Você que se deixa sentir e se deixa chorar. Que se treme toda, sente enjoo, nó na garganta, coração pulsante, riso nervoso, suor frio. Você que se acha otária porque toda essa gente por aí confunde intensidade com papel de trouxa (às vezes os dois se misturam, às vezes têm diferença).

Você não é otária. Você apenas tem tanto afeto afogado na água do corpo que ele precisa transbordar. E você é fácil. Por mais que seja difícil e complexa. Você é fácil pra dar afeto. Um dia, eu ouvi “parem de sentir afeto por mim”. Respondi que, se controlasse, não sentiria. Mentira. Sentiria sim. Eu gosto de ser essa bagunça intensa e afetuosa, mesmo que isso me faça chorar. E faz.

Ah mas faz mesmo, faz bem, faz demais. Você que transborda afeto e às vezes o direciona em doses altas a quem não vai corresponder. Aí você vai olhar pra aquela pessoa, vai sofrer um tanto, vai sentir pelo corpo todo e vai pensar “meu deus, esse inferno nunca vai acabar”. Mas olha, acaba. Não, eu não to falando isso só pra te tranquilizar, mas porque acaba mesmo. Mesmo.

Não o afeto. O sofrimento que o excesso dele pode causar. É como eu já li: “dói. Mas passa”. Porque tem gente que vai receber esse seu afeto intenso e não vai saber aproveitá-lo como poderia. Muitas vezes, porque ela não é como você e tem medo de se envolver. Não necessariamente amorosamente. Tem gente que tem medo de se envolver até consigo mesma.

E você aí, envolvida com tudo o que faz na vida. Aí às vezes vai ter
essa pessoa que não vai responder à sua alma transbordante como você gostaria, e você vai olhar pra ela com um misto de amor e raiva, querendo usar as mãos para dar tapas e fazer cafuné. É como diz a personagem de um filme que amo: “você me mata, você me faz bem”. E aí um dia essa pessoa pode te fazer muito bem, mas depois ela começa a te matar, você fica triste, você se afoga, se sufoca, você acha que nunca vai sair debaixo d’água.

Quanto mais você olha para ela, mais você sente como se uma mão empurrasse
sua cabeça pra baixo. Mas fica tranquila. Respira. As ondas vão passar e outra mão pra te puxar vai sempre aparecer. Você volta a nadar. A pessoa que te mata vai parar de te matar. Às vezes ela para de fazer bem também. Ela só chega naquele nível em que não faz nem um nem outro. No melhor dos mundos, ela para de matar e passa a só fazer bem.

Você que é só intensa (como se isso fosse ser só) vai se tocar das vezes em que seu afeto te fez de otária e das vezes em que você o respeitou lindamente, como só alguém corajosa como você consegue fazer. E para essa pessoa que não queria seu afeto, você só vai desejar muito, mas muito afeto. Não o seu. Pelo menos não aquele seu. Um outro. Porque essa palavra, ela vem de muitos jeitos e muitas formas. Você vai lamentar por ela não sentir tanto quanto você.

Você vai perder amor, você vai perder raiva, você só vai olhar pra ela e pensar “meu deus. Eu só quero que você tenha todo afeto do mundo”.

E não vai sentir mais vontade de socar, só de abraçar. Porque você vai superar e vai se tocar de que você tem tanto, mas tanto pra dar, que simplesmente não precisa dar pra todo mundo. Tem gente que não aguenta. Tem gente que não TE aguenta. E tudo bem.

Você não foi feita enorme desse jeito para que todo mundo aguente o peso da sua alma. E ta tudo bem. Se ainda não ta, vai ficar.

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS



Marina Martins
Uma artista amadora de gente e da vida, tentando colorir o mundo de arco-íris e escapar dos currículos para se definir. Uma sonhadora preenchida por ilusões e realidades que fotografa, filma e escreve o mundo para que ele não escape nunca da memória. E uma cineasta carioca formada no Rio fazendo mestrado em Paris.