São sete da manhã.

O frio do inverno chegou e nos enlaça cuidadosamente. Ele faz parte de nós, nos envolvendo constantemente em sua atmosfera gélida.

Me levanto da cama em busca de uma xícara de café. Algo para me esquentar, para trazer o calor que você tanto nega, a ardência que tanto busco em seus braços, mas que me é repelida com tanta veemência. O vapor do café atinge meu rosto. Finalmente me permite uma sensação de aconchego que falsamente acalma meu apertado coração.

Estou usando uma camiseta velha do Pink Floyd, a sua favorita. Como eu gostaria de fazer parte das suas predileções. Da sua coleção de corações partidos o favorito, dos seus troféus de mulheres apaixonadas a eleita, a mais carinhosa das suas histórias de amor.

Paro em frente a cama e o observo dormir.

Você está tão calmo, com seus cabelos castanhos e cacheados descansando sobre o travesseiro. Estava sempre e perpetuamente impertubável. Esse é o problema.

Enquanto sou coração aflito, você é mente sã.

Anseio que tsnuamis surjam, que inundam sua mente com pensamentos sobre mim, invadam o seu coração de modo incontestável, destruam muros e conquistem meu espaço em você. Você quer um lago plácido, calmaria em tons de azul, imutáveis sentimentos que permanecem serenos e impassíveis.

Saio do quarto me sento na mesa da cozinha com a minha xícara de café. Penso na superficialidade do nosso relacionamento. Eu o amo e não posso demonstrar, eu o quero, mas tem que ser na medida que você considera aceitável. O fato de ser sempre tão despreocupado e reservado me obriga a ser também. E nas proporções ideais tento fracassadamente implementar a receita do relacionamento ideal.

Todas as minhas eternas dúvidas residem-se nisso: você quer me abraçar e beijar. Você fala coisas sobre como o tempo passa rápido ao meu lado, como você gostaria de ficar para sempre aqui comigo, no calor do meu corpo e no meu abraço condescendente. É muito discurso para pouca ação. Como um bom político você me promete mudanças em sentimentos e me nega em atitudes e não há CPI que resolveria essa corrupção de afetos que reside em você.

Você é assim, um próximo distante e eu assim permaneço uma distante próxima.

Vivo um excesso de liberdade em nosso relacionamento que me faz me sentir presa. Na penitenciária dos sentimentos reprimidos meu regime fechado me alucina. Me comportei tão bem, escondi minhas emoções de maneira tão realista, fui a melhor detenta possível dentro desse coração vedado.

Por que você não me deixa reconquistar a minha liberdade?

Não consigo ser feliz assim, mas também não tinha como matar a minha esperança de que um dia tudo isso fará sentido. A esperança é a última que morre e a minha sofre a tortura lenta da ilusão. Me afogando diariamente em pequenos sinais, pedindo por ar, por qualquer mínima demonstração de afeto. Pouco a pouco perdendo a vontade de viver, até o dia em que ela se entregue e desista de resistir à realidade.

Termino a xícara de café, você acorda e deito novamente ao seu lado. A realidade pode esperar por enquanto. A esperança ainda luta contra a flagelação da sua indiferença, e eu me deito esperando que em sonhos possa tudo ser melhor.

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Giovanna Ghersel
Giovanna Ghersel tem 23 anos, é estudante de direito e comunicação. Viciada em séries, viagens e desventuras amorosas. Considera ler e escrever terapêutico além de claro: desabafos em mesas de bar, cantar evidências no karaokê ou fazer uma maratona de netflix e pipoca. Atualmente está tentando escrever um livro e descobrir o que fazer da vida. Enquanto isso vai recolhendo experiências e usando-as de inspiração para os textos, afinal não existe nada mais extraordinário do que a vida.