Arte por Frank Moth

De acordo com nossa forma de entender as coisas, podemos dizer que a Natureza pertence ao Caos. E dentro dele ela se instala de forma tão pacífica e desapegada que o próprio Caos não consegue manter-se por muito tempo e acaba – em um momento de extrema beleza – se tornando Harmonia. E ela própria reconhece, em nome de sua existência e em nome da existência de tudo que há, que deve voltar a ser Caos em algum momento. Nada pode – nem deve – existir em eterna constância. Tudo tende a voltar a seu estado inicial para voltar a transformar-se e assim por diante. Isso é o que podemos chamar de estado natural das coisas.

O ser humano nasceu junto com a consciência. Ou melhor, com a capacidade de ser consciente da sua própria consciência. A noção de si. De singularidade. Antes éramos natureza, éramos animais. Sujeitos as leis incontroláveis e inconstantes que regem tudo o que pertence ao todo, a unidade universal, que não se importa de não ser único, de não ser um momento especial na existência de tudo, de não ser consciente de si.

A partir disso – e pra fazer isso ter algum sentido tangível – tomamos o mundo de acordo com nossas próprias medidas. As coisas são determinadas a partir da nossa capacidade de interagir com elas, de forma que nos tornamos nosso próprio ponto de referência. A vida passa a existir e ser sentida como uma expressão das nossas próprias limitações. Uma coisa só é grande se nos sentimos pequenos em relação a ela, da mesma forma que algo só dura muito ou pouco porque inventamos o tempo, uma forma de fracioná-lo e consequentemente medi-lo. Só estamos em um lugar específico porque determinamos onde ele começa e termina. Assim sabemos que temos determinado tempo de vida e dentro dele estimamos se algo é longevo ou efémero. Tentamos conseguir o máximo possível em todos os sentidos e extrair o máximo possível de tudo, de todos e da vida.

Através da noção da nossa existência material limitada e em constante decomposição, do tempo que temos enquanto indivíduos autoconsciêntes, e do quanto desse tempo (cada vez menor) nos resta, criamos expectativas, traçamos objetivos e metas pessoais que nos prendem ao nosso próprio sistema de regras, que nos colocam sempre lutando contra algo que não conseguimos dar um rosto, um nome, ou uma forma. Somos nós mesmos. Inconscientemente lutamos contra tudo que teoricamente deveria nos dar mais conforto e uma noção maior de individualidade e singularidade.

Nossa autoconsciência nos faz sentir que não podemos nos entregar ao Caos que rege a natureza, portanto determinamos parâmetros morais, intelectuais, sociais e religiosos que nos fazem sentir um pouco mais protegidos da fúria incessante de tudo que não pode ser controlado, do incerto e inconstante. Determinamos o Eu, o Meu, o Ter, o Ser, o Estar e até o Sentir da mesma forma que determinamos o grande e o pequeno: A partir de nós e de nossa separação do resto.

Ao forçar essa quebra, acabamos por tomar algo muito grande por uma fração muito pequena e assim obviamente caímos em dúvidas, incertezas, medo e dor. Damos nomes as coisas para categoriza-las em nossos próprios parâmetros de segurança e controle, sempre dentro de nossas próprias limitações, criadas por nós mesmos. Fugimos da natureza caótica e hostil em nome do nosso conforto, e com isso não percebemos que abrimos mão de nossa verdadeira liberdade. Lutamos uns contra os outros para garantir nosso direito de ir e vir, de ter, de ser, de comprar, de se expressar e de crer. Chegamos a um momento de tamanho desespero que não percebemos que nós mesmos abrimos mão disso para não sentir que não estamos sujeitos a natureza caótica e inconstante de tudo. Abrimos mão de nossa liberdade verdadeira por uma liberdade categorizada, cartesiana em nossos próprios parâmetros, sujeita sempre a atualização imposta pelas nossas novas regras. No fundo sabemos que abrimos mão de algo maior que não pode ser compreendido tomando nosso ponto de vista individual como ponto de partida. Algo que não está a nosso alcance por não sabermos aceita-lo e lidar com ele com o desapego necessário. E nisso, de uma forma egoísta tipicamente humana, encontramos alguém para culpar, uma força maior incontrolável sob a qual nos resta em ultima instância apenas resignação e aceitação. Quase como um Caos moldado a nossa própria imagem com julgamentos morais parecidos com os nossos, mas com expectativas não muito claras, o que nos deixa muito confortáveis com a eterna dúvida sobre nosso sentido nisso tudo.

De certa forma criamos um criador para nos sentir criaturas, nos sentirmos algo feito de forma específica e determinada, com limitações, com erros inevitáveis de projeto e em constante luta com tudo que nos deveria ser natural. Assim surge Deus, assim surge o pecado, assim surgem regras seculares que não devem ser contestadas com base no princípio de que somos a maior criação já feita e devemos fazer de tudo para nos preservar ao máximo do caótico, do hostil incontrolável que abala e subjuga tudo que não aceita que é apenas parte do todo, que as coisas acontecem em um segundo ou não acontecem jamais, totalmente independente do tempo que tem para acontecer ou das consequências que se seguirão, pelo tempo que seguirão.

Queria um deus selvagem, que se afasta a medida que tentamos dar a ele um nome, uma casa, uma família ou um sistema a seguir. Que não tem idioma por isso não tenta falar nada. Um deus se recusa a ser adestrado, pois sabe que isso seria feito de acordo com a nossa forma de vê-lo. Que sabe que nosso movimento acabou sendo tomar tudo a partir de nós, portanto nunca será de ninguém nem de nada. Pois tudo que vem a Ser é nosso, e por isso ele não é. Queria um Deus incapaz de julgar, pois ele mesmo estaria em constante acontecimento aprendendo conosco, aprendendo a ser mais do que ensinando a ser, até porque isso objetivamente não existe.

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS