Nomeei de “Crônicas do Tempo” quatro textos que escrevi para o meu avô,
quando ele estava internado no hospital em seus últimos dias. Eles me ajudaram a
compreender toda aquela situação de alguma forma e agora, relendo, por mais difícil
que seja, fiquei feliz de tê-los escrito. São memórias importantes. Aqui, juntei o último
texto com o uma parte do primeiro, porque acho que os dois conversam entre si.

O clima está fresco e o céu azul. Lá fora, a brisa bate e os pássaros cantam.
Aqui, o silêncio ensurdece. Os ponteiros gritam. Você permanece imóvel na mesma
cama. Dorme, exausto. Dói quando alguém está exausto por não fazer nada. O nada
cansa. O ser não sendo enlouquece. A exaustão do tempo no corpo é cruel. É agoniante
o barulho que esse relógio faz, mas parece que ninguém percebe. No entanto, toda vez
que venho aqui, é só isso que escuto. Nem mesmo os passarinhos ou a voz da minha
mãe cantando fazem com que os ponteiros passem despercebidos.

Ela também está cansada, minha mãe. Queria ser forte o suficiente para segurá-la, mas como?, se nem eu me seguro. Eu não sei, às vezes me acho muito fraca, às vezes muito forte. A gente tem mania de achar que sentir e sofrer é fraqueza, mas acho forte quem se permite a isso.

Toda vez que venho aqui, me sinto tonta e enjoada. O cheiro do hospital e o peso
do tempo sobre ele e sobre quem está nesses quartos.Te olho, imóvel. Você e eu. Te dou a mão. Minha mãe canta a música que cantamos para minha avó, após sua partida. Te olho, imóvel. Não deito ao seu lado, pois te afogaria.

Não controlo minhas lágrimas. Nem as memórias que vêm à minha cabeça
de quando você era você, não um frágil corpo em uma cama de hospital. Estou de costas
para minha mãe, que canta sem me ver transbordar. Você por vezes fala aleatoriedades,
por vezes permanece calado. Dorme, imóvel. Acorda, imóvel. Só os olhos e a boca se
mexem. E então se move com dificuldade, já sem forças para querer ter a força de
querer levantar dali. O simples movimento de coçar o rosto ou ajeitar o lençol pesam, assim como o tempo. O tempo te faz cada vez mais leve, mas pesa. E dói em mim ver o
peso que ele descarrega em cima de você.

É muito louco isso, sabe. Muito louco isso tudo. É muito louco ver, nas pessoas
que a gente ama, que o tempo passa. Porque um dia elas estão ali, andando de bicicleta,
passando perfume, deixando o cheiro em você quando te beijam, fazendo
hidroginástica, vendo show do Gil e do Caetano. No outro, elas estão numa cama de
hospital e a música que toca é um insistente tique-taque de relógio. E algumas mais
gostosas que sua mãe e suas tias colocam para ele escutar.

Um dia, você tem três anos, está andando de mãos dadas pelo Jardim Botânico e
aprendendo a decifrar as palavras. No outro, você as utiliza para tirar de você o que
você não aguenta que fique dentro, enquanto o relógio azucrina o seu ouvido e o ouvido
das pessoas que estão em camas de hospitais. E o tempo passa. Mesmo assim o tempo
passa. Tem gente nascendo e gente morrendo. Tem gente fazendo aniversário. Mais um
segundo, mais um ano. Você já não cabe mais na garupa e não é leve ao ponto de ser
jogada para cima. Pelo contrário, você sente o peso do mundo nas costas e na garganta.
E o peso do mundo machuca. Mas machuca ainda mais as pessoas em camas de
hospitais. E as pessoas que você ama ficam frágeis, mais frágeis que você, ficam leves
com tanto peso da vida.

Elas precisam do cafuné que já tanto te deram. Você já não cabe mais esticada no sofá, com a cabeça no colo do seu avô e os pés no colo da sua avó – ela dizia que eu sempre fazia essa escolha e reclamava comigo. Eu não lembro de sempre fazer essa escolha. Aí eu revezava. Cada hora com a cabeça e os pés em um colo. No sofá, há tempos que só deita o seu avô ouvindo aquela televisão insuportavelmente alta. E ele lá, reclamando da porra da televisão brasileira que só passa merda. A vovó não está mais lá para vocês três rirem das bobagens de Zorra Total.

Vovô também não está lá há um tempo, porque está sem rir numa cama de hospital. E mesmo assim o tempo passa. E as pessoas fazem anos. Ou são os anos que fazem as pessoas? Você teme pelo dia em que passará a falar delas no passado e não mais no presente. Não é à toa que presente chama presente. Viver é um presente. Ou não? Depende. Às vezes não. Não mais. E ainda assim… ainda assim, o tempo passa. Os
anos caem sobre as pessoas e os ponteiros dos relógios não param. O colo que te
carregou não consegue mais te segurar e você teme por nem você conseguir te segurar.
Será que você cabe no seu colo?

Daqui a pouco ele vai estar longe daqui. Daqui a pouco você também. Mas em
longes diferentes. E afinal, você já sabe, a gente é só. A gente tem que saber se segurar e
aguentar todos os anos nas nossas costas. Todos os alívios e as dores e os alívios de
quando passam as dores. Alívios que também pesam, porque, às vezes, para uma dor
passar, ela precisa ir embora. De vez. Com as pessoas. O tempo passa em volta de nós e
ele não sente dó, não dá nenhuma respirada. Então a gente tem que aprender a respirar.
E deixar voar.

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Marina Martins
Uma artista amadora de gente e da vida, tentando colorir o mundo de arco-íris e escapar dos currículos para se definir. Uma sonhadora preenchida por ilusões e realidades que fotografa, filma e escreve o mundo para que ele não escape nunca da memória. E uma cineasta carioca formada no Rio fazendo mestrado em Paris.