dizem por aí que coração é vermelho.
não discordo.
o meu é. cor do meu sangue.
mas desconfio de que há uma parte que a radiografia não mostra e que eu também não
vejo, só sinto.
a parte onde ele é de todas as cores.
como toda veia sanguinolenta que corre dentro de mim.
o céu.
ele é azul.
mas vocês já viram o céu quando o sol se põe? ele é muitas cores.
e meus olhos se encantam vendo essa mistura das cores quentes e frias que, quando faz
dois graus, parecem congelar junto com meus dedos que fotografam e filmam o tempo
para congelá-lo também e com suas cores.
estava chovendo muito. passei dias pedindo sol ao universo. fechava os olhos e me
punha de joelhos: por favor.
anteontem foi dia de iemanjá e fui pedir até a ela.
o frio pode ser cruel. sem sol, é ainda mais.
na minha terra, toda carne nessa hora é de carnaval. talvez por isso hoje tenha
finalmente aberto o sol, colorindo o céu de azul.
céu branco não alegra.
permaneci em casa com medo do frio. mas vim até a varanda para ver o sol se por.
de um lado, vejo o canal. do outro, o pico da torre. mais à direita, o da igreja.
os telhados da cidade.
observo seus contrastes com as cores do por do sol.
o céu fica rosa, mas um rosa neon, como a cor dos maiôs das meninas que pulam
carnaval nas ruas da minha cidade.
curiosamente, o céu neon está bem atrás da torre. ao lado, uma nuvem brilha com seu
contorno cor-de-rosa.
me lembro de meu avô e de minha avó.

numa tentativa de imortalizar a vista, lembro de pessoas, que não são imortais.
choro de beleza e não de tristeza, pois o belo sempre faz com que lágrimas escorram de
meus olhos.
brincamos, eu e o tempo, de congelar.
ele congela meu corpo e eu o congelo em imagens.
a luz do sol penetra meu rosto e minha lente que magicamente a retrata de forma que o
olho não vê.
será que as câmeras me fazem ver com olho que não é meu, e por isso me fascinam
tanto?
será que minha arte, que trabalha com câmeras, me dá forças para meus dedinhos
gelados digitarem o sol que se põe?
um dia disseram que coração é vermelho.
mas diante desse céu cor de purpurina:
o meu tem cor de por do sol.

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Marina Martins
Uma artista amadora de gente e da vida, tentando colorir o mundo de arco-íris e escapar dos currículos para se definir. Uma sonhadora preenchida por ilusões e realidades que fotografa, filma e escreve o mundo para que ele não escape nunca da memória. E uma cineasta carioca formada no Rio fazendo mestrado em Paris.