“Cheguei a tempo de te ver acordar, eu vim correndo à frente do sol. Abri a porta e antes de entrar revi a vida inteira”. E eu fiquei ali, imóvel e intacta, sem piscar os olhos por dias, me equilibrando no batente da porta, tentando entrar. E como foi difícil entrar. Eu sabia que trancar a porta não seria fácil. O portão emperrou, sabia? O controle não funcionava, assim como as minhas horas perderam a bateria e a vontade de passar.

Naquela noite eu desmontei um armário inteiro, sozinha. De novo. Mudei de casa três vezes, sozinha. Levei tudo com a minha própria força de simplesmente ir. Mas desmontar esse armário fez com que eu me desmontasse por dentro, sabia? Primeiro eu tirei as portas, e já fazia alguns dias que elas estavam capengando. Emperradas igual a minha vontade de ficar. Mesmo sendo novo, as histórias dentro desse armários eram velhas, cheiravam a pó.

Depois, eu tirei prateleira por prateleira, como quem tira caco por caco dos pés machucados de uma ausência sem fim. Coloquei em sacos e malas cada objeto como quem quer enterrar para sempre uma vida que se apagou. Passei por cada cômodo daquela casa recolhendo vestígios, sinais, e desejei não esbarrar em nada para não parar, como quem quer tirar os buracos de dentro.

Cada centímetro daquele armário tinha algo para ser esquecido. Mãos, suplicas, um adeus que nem mesmo existiu. Decidi abrir outro vinho e acender mais um cigarro. Então chegou a hora de tirar as gavetas, e ficou ali aquele espaço vazio, estranho, vago. Só um batente metalizado que foi como um tiro. Já não tinha mais nada. O armário, a casa, a cama e eu.

Estávamos vazios, a sós, como nos apertados de solidão e angustia. No dia seguinte, amor, acordei no chão da sala com Aurora em meus olhos, me chamando pra viver. No dia seguinte, amor, eu montei outro armário, sozinha, de novo, peça por peça, prateleira por prateleira, novas gavetas, novas histórias, outros parafusos.

E hoje, cada vez que abro esse armário, um horizonte inteirinho se abre para mim. Organizei tudo de novo, como quem organiza a própria vida. Por dentro e por fora, eu já era outro armário espelhado, refletindo tudo, menos você! “Quem sabe isso quer dizer amor?”. A música acabou!

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Jornalista, fotógrafa, viajante. Apaixonada por estradas, acostumada com partidas, viciada em sentir. Sempre acompanhada de uma câmera e uma xícara de café.