A pergunta mais difícil de se fazer ainda não foi feita. Já foram incontáveis reencontros, mas aquela dúvida que dói bem no fundo fica. Já foram inúmeras teorias. Nenhuma capaz de encher plenamente o buraco deixado pela questão enterrada no final dos pensamentos.
Já se passaram mais de dois anos. E nada daquelas quatro palavras se libertarem do inconsciente e tomar o mundo, seguidas de um gole longo da cerveja gelada pra aguentar a dureza da resposta.Porque não se faz possível suavizar a conclusão mais dolorosa de uma relação interrompida. Quem pergunta se prepara pra encarar a realidade em toda sua frieza. É o mundo sendo vida real na sua pior face. É a ferida exposta na mesa. O recalque.
E os infinitos questionamentos sobre o que poderia ter sido diferente. Nada. Encare. Nada seria diferente. Voltar no tempo não pode fazer ninguém se apaixonar por você. Mundo cruel, moinho que tritura nossos sonhos. Não nos permite voltar no tempo. Se permitisse tinha data e local. As malas estão prontas há tempos, cheias de atitudes diferentes e respostas pra tudo.
Grande vantagem dos viajantes do tempo. Mas eles perdem o agora. Assuma, a roupa do passado não te serve mais. Não deixe que esse aperto impeça seus movimentos no presente. O agora. Bebe mais um gole da cerveja e toma coragem. Destila aquela angústia num ar já tomado pelo hálito quente de álcool e gordura. Joga pra cima do outro a responsabilidade de não te ferir mais do que a dúvida já feriu. Desiste do não saber e encara a verdade.
Se levanta, mais que isso, você vai se reerguer, toma o último gole e segue. Se voltar no tempo, certamente você vai cometer os mesmos erros e terminar na mesma mesa suja de bar, num dos muitos encontros com o futuro, que já foi passado e não é mais presente.
E lá, nesse tempo que já não sabemos mais, antes do fim do ultimo copo, o gole final, que engasga na garganta já ocupada pelas palavras que vem vindo lá do meio do estômago. E você não consegue mais controla-las. Sua boca, num ato de rebeldia, se abre e solta aquele quase grito, num tom de alívio libertador.
cleardot - Aquela pergunta que ficou sem resposta
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Mariana Andrade
Da jornalista que queria mudar o mundo pra Mari de hoje lá se vão alguns anos e muitos textos. Escrevo o que escondo. Mais engraçada pessoalmente.