Marisa, certa vez, me perguntou o que era amor. Silêncio. Silêncio, respondi. Amor só se sente, não se define, acrescentei. Ela achou clichê. Eu também. Fiquei frustrada com a minha resposta, talvez por sentir demais e não estar satisfeita, talvez só pela resposta abstrata e pronta. Marisa, quando o amor adormece?, perguntei. Ela disse que se o amor tem sono, é porque não há amor. Quis por um momento fechar meus olhos e só acordar quando não quisesse mais dormir. E fiquei ali, deitada, do lado direito da cama, a esperar o escuro. Acordei. E percebi que o lado esquerdo permanecia vazio e doía. Ainda não adormeceu, pensei. Voltei para perguntar a Marisa o tempo para o sono vir. Ela gargalhou. Está com insônia, menina?, perguntou com deboche. Toma rivotril. É o que me faz dormir diariamente, adicionou. Fiquei calada. Depois, olhando para os olhos dela, percebi que ela estava tão perdida quanto eu. Que adormecer era também uma vontade, como a minha. Quis amar Marisa, pra preencher esse amor que transborda e não molha. Mas também  só ia tentar encher a mesma piscina. E sabia que não era Marisa. Nem ninguém. Respirei fundo e virei as costas. Continuei andando. Menina, quer rivotril?, Marisa gritou. Eu disse que não gostava de remédios. Ela disse que nem sempre se adormece com o nascer do Sol. Eu respondi que ia esperar. Que para construir uma piscina, precisava do Sol para aquecer. Sentei ao pé da cama. Tive insônia de novo. Mas dessa vez no meio. Bem no meio. O vazio ainda tava ali, mas sem lado nenhum. Amanheceu.

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Juliana Tavares
Juliana Tavares é a atriz pisciana que quer guardar o mundo dentro de si. Formada em Comunicação Organizacional e amante de viagens. A carne é de carnaval.