Quando eu estava junto com ele o meu maior medo era que Someone like you, da Adele, virasse a música da nossa história. Me dava um arrepio frio na espinha toda vez que tocava no rádio. Eu, como que para espantar aquele mau agouro com sotaque inglês, trocava a estação e pedia em silêncio que aquele não fosse o destino do nosso amor. Não passou mesmo muito tempo até que ela virasse um resumo da gente. E com o fim, por tempos, procurei por ai alguém como ele.

E procurei até descobrir que eu não era apaixonada simplesmente por ele. E que não era alguém como ele que eu deveria encontrar por ai. Eu era, antes de tudo, apaixonada por quem eu era com ele. Leve, mais leve que esses 46 kg que me ocupam. Senti o sabor da vida e me apaixonei por isso. Livre, bem livre pra tomar um copo de Toddy gelado no café em silêncio, ainda descabelada e sem escovar os dentes. Essa era eu, sou eu. Desde o momento que perdi aquele cara e pelos mais de mil dias que se seguiram estive perdida sem saber. Terminei comigo mesma e precisava ir atrás dessa pessoa que deixei de ser. Tinha que encontrar quem eu era de verdade.

Eu estava assim, vivendo incompleta de mim mesma. Achando que outra pessoa poderia me fazer ser quem sou. Porque desde então ninguém mais me deixou ser tão plenamente e intensamente. Nem eu mesma me deixava ser dessa forma. Vou me blindando e ponderando o tempo todo. Me construo outra pessoa sem querer. O gesto calculado me deixa mais segura que minha estridente espontaneidade. Belo erro esse. Eu não me completo no outro e não dá pra mais viver esse eterno mando ou não mando, ai meu deus o que será que ele vai pensar, né?

E ai, às vezes, assim, de maneira bem discreta, me vejo, de relance tentando voltar. Depois de me dar conta de quem eu sou e de quem quero ser me pego ali rindo alto na rede da varanda com uma taça de vinho na mão ouvindo novas histórias. To correndo pra me alcançar e não me deixar escapar outra vez.

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COMENTÁRIOS




Mariana Andrade
Da jornalista que queria mudar o mundo pra Mari de hoje lá se vão alguns anos e muitos textos. Escrevo o que escondo. Mais engraçada pessoalmente.